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Trajetória

A trajetória de Moraes Moreira

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Foto: Divulgação

O baiano Moraes Moreira poderia ter gravado apenas um álbum em sua carreira de mais de cinco décadas e isso seria o suficiente para marcar  seu nome na música brasileira: afinal, Acabou Chorare (1972), dos Novos Baianos – grupo do qual ele foi integrante fundamental -, é reconhecido como um dos discos mais importantes da discografia nacional. Tanto que, em 2007, a revista Rolling Stone o escolheu como o melhor álbum brasileiro de todos os tempos.

Mas Moraes, que morreu nesta segunda-feira (14) no Rio de Janeiro, aos 72 anos, em decorrência de um infarto do miocárdio, foi muito além e, em carreira solo, iniciada em 1975, deixou uma série de clássicos que marcaram o nosso cancioneiro e, principalmente, escreveram a história de muitos carnavais.

São aquelas obras raras que impregnam nossa cultura de tal forma que, às vezes, esquecemos que ela tem um autor: Pombo Correio (com Dodô e Osmar), Festa do Interior (com Abel Silva) e Bloco do Prazer (com Fausto Nilo) são algumas delas.

Moraes, que nasceu em Ituaçu, no interior da Bahia, começou ali a carreira de músico, como sanfoneiro, na adolescência. Veio  para Salvador, onde, numa pensão, conheceu Luiz Galvão e Paulinho Boca de Cantor, com quem formaria os Novos Baianos. Pepeu Gomes, Dadi e Baby Consuelo também estavam entre os integrantes do grupo que lançaria em 1969 o álbum Ferro na Boneca, musicalmente muito diferente do que viria depois.

O primeiro álbum da banda era essencialmente de rock e não tinha tantos elementos brasileiros como Acabou Chorare. O segundo disco da banda, de 1972, era marcado por uma mistura impressionante: tinha samba, choro, bossa, frevo e, claro, ainda tinha umas pitadas de rock.

A mudança sonora do primeiro para o segundo trabalho tinha influência de João Gilberto (1931-2019), que se tornou uma espécie de padrinho e conselheiro voluntário da banda.

Mas, anos antes, logo que chegou a Salvador, Moraes conheceu um outro músico que também marcou sua carreira: o tropicalista Tom Zé, que lhe deu as primeiras aulas de violão. O cantor e compositor de 83 anos se manifestou ontem sobre a morte de ex-pupilo.

“Que notícia, nossa Senhora. É uma notícia de doer o coração”, afirmou. “Eu dava aula de violão num seminário de música e, lá pelos anos de 1963, 1964, apareceu um rapaz comprido, com uma roupa meio que do interior, e eu disse para ele: ‘Rapaz, aula de violão é muito cara, você não vai poder pagar’”, relembrou o músico à Folha de S.Paulo.

Em reconhecimento à importância de sue professor de violão, Moraes compôs Obrigado, Tom Zé. “Tom Zé foi quem me ensinou acordes no violão, Tom Zé foi quem me falou sobre o poeta Galvão”, diz a letra da canção de 2017.

Emoção

Paulinho Boca de Cantor, amigo-irmão de Moraes, foi uma das primeiras pessoas a saber da morte do companheiro de banda e também se manifestou num áudio distribuído à imprensa: “É importante que a gente fale só desse amor, dessa coisa que começou há 50 anos, quando eu encontrei pela primeira vez ele, Galvão, e a gente pensou que juntos poderíamos fazer alguma coisa. O que é importante é que essa música que a gente começou a fazer há 50 anos está aí viva e o Moraes Moreira era o grande timoneiro: aquele violão que não existe nada igual, todos os artistas brasileiros que tocam violão sabem da capacidade que ele tinha de fazer um show voz e violão, botar todo mundo para dançar; as composições contando a vida, aquilo que a gente estava vivendo”.

Gilberto Gil também fez uma homenagem no Instagram e lhe dedicou um pequeno poema, acompanhando uma foto antiga dos dois: “Menino do sertão da Bahia/ ouviu encantado a música do mundo/ e fez dela seu universo expressivo”.

Moraes não vinha dando sinais de problema de saúde e até estava produzindo com frequência. Realizou um show no Rio no dia 13 de março e tinha cerca de 20 composições inéditas que deveriam estar no próximo álbum.

Sua última publicação nas redes sociais foi em 17 de março, em forma de cordel e era sobre a quarentena: Eu temo o coronavirus/ E zelo por minha vida/ Mas tenho medo de tiros/ Também de bala perdida. O compositor, muito interessado por cordel, lançou em 2007 o livro A História dos Novos Baianos e Outros Versos, em que narrava a saga da banda no formato literário que marca o Nordeste.

Nos últimos anos, Moraes vinha se apresentando com o filho Davi, num show em que cantava músicas dos Novos Baianos e de compositores como Luiz Gonzaga. A família não divulgou detalhes do sepultamento, para evitar aglomerações.

A volta dos Novos Baianos

Moraes Moreira saiu dos Novos Baianos em 1975 e lançou-se numa carreira solo de sucesso. Mas, mesmo após ele sair, a banda seguiu carreira.

Finalmente, em 1979, já com uma formação muito diferente da original, os Novos Baianos decretaram seu fim. Baby e Pepeu, casados, também tiveram uma carreira solo expressiva. Dadi seguiu como músico de ar- tsitas muito importantes, como Marisa Monte, Caetano Veloso e Jorge Benjor.

Mesmo com o brilho como artsita solo, Moraes reconhecia a importância do passado do grupo e, em 1997, aceitou se reunir com os antigos companheiros para realizar o show Infinito Circular, que renderia um álbum ao vivo homônimo.

Uma nova reunião aconteceu em 2009, para celebrar os 40 anos do grupo. No Carnaval daquele ano, em Salvador, Baby, Pepeu, Moraes e Paulinho se apresentaram no circuito Barra/Ondina e quando pararam em frente ao camarote Expresso 2222, de Gilberto Gil, cantaram com o tropicalista e Preta Gil, filha dele. Eu Também Quero Beijar (parceria com Fausto Nilo e Pepeu) e Preta Pretinha embalaram os foliões naquela hora.

Concha

Em maio de 2016, novamente os músicos se juntaram para a reinauguração da Concha Acústica. Nas redes sociais, Moraes lembrou que naquele mesmo palco aconteceram os primeiros shows do grupo nos anos 1970.

Foram duas apresentações com ingressos esgotados. O sucesso da reunião entusiasmou os músicos, que resolveram, no ano seguinte, realizar uma turnê, desta vez com mais planejamento e estrutura, com uma bela cenografia de Gringo Cardia, que incluía até um carro que levava os artistas ao palco. A base do repertório era o clássico Acabou Chorare, redescoberto por novas gerações.

“Sinto que os Novos Baianos têm uma missão no Brasil. Aparecemos num contexto político difícil [a ditadura militar] e viemos para levantar a autoestima do povo brasileiro”, disse o artista à Folha de S. Paulo na época da turnê.

Fotografo, videomaker, editor do site Os Bastidores, estudante compulsivo de TI, fã de Heavy Metal, estudioso da cultura medieval e apreciador de um bom vinho.

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