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Zé Ramalho é um dos maiores nomes da MPB e, em 1978, lançou um álbum homônimo que teve alguns dos seus maiores clássicos.

Contando com guitarras de Sérgio Dias (Os Mutantes) e participação de Patrick Moraz (Yes), o disco tinha tudo para ser um sucesso — e foi. Além de “Avôhai”, uma das canções mais icônicas do trabalho foi justamente “Chão de Giz”, parceria com Elba Ramalho Amelinha, e a letra cheia de metáforas para contar a história de um jovem apaixonado encanta e ecoa pelo Brasil até hoje.

Mas, afinal de contas, como interpretar as várias nuances que Zé dá à letra? Para entender, precisamos primeiro contextualizar: naquele momento, rumores dizem que o cantor tinha um relacionamento “escondido” com a esposa de um homem influente de João Pessoa, cidade em que residia na época.

Se isso é verdade ou não, não sabemos. Independentemente, a letra fala sobre um rapaz apaixonado que vai, aos poucos, se livrando das amarras de um amor não correspondido.

“Chão de Giz”

Para começo de conversa, o que é o tal “chão de giz”? Bom, apesar de alguns acreditarem que poderia se tratar de um chão cheio de cocaína, o mais provável é que o músico esteja se referindo a uma estrutura frágil, na qual ele faz seus “devaneios tolos”.

Em seguida, Zé conta que pegou as fotos de jornais (já que supostamente se tratava de uma pessoa famosa) e jogou tudo em um “pano de guardar confetes”, costumeiramente usado no Nordeste brasileiro. Ele também lamenta a existência de um “grão-vizir”, em referência à figura da nobreza.

Na época do Império Otomano, o grão-vizir tinha uma autoridade sobreposta apenas pela do próprio sultão — era uma função semelhante à de um primeiro-ministro dos tempos atuais.

Por isso, mesmo disparando suas “balas de canhão”, Ramalho não conseguia atingir a sua “violeta velha”, como ele se refere à amada no verso seguinte. Se comparando a um colibri, ele frisa que existem muitas outras mulheres mais velhas que anseiam pelo amor jovem, mas não é o caso da pessoa desejada.

Outro tema recorrente na faixa é o sexo — pelo que Zé explica, essa parecia ser a única intenção da pessoa com quem ele se envolveu, mas ele queria ir além. É o que ele procura dizer quando se divide entre usar uma “camisa de força” (para se manter distante dela) ou uma “camisa de vênus” (em referência ao preservativo/camisinha).

Da mesma forma, a temática repetida do cigarro (“Mas não vou gozar de nós apenas um cigarro” e “Não vou me sujar fumando apenas um cigarro”) levam a crer que ele está decidido a não mais aceitar deste relacionamento apenas o que a mulher oferece: uma “tragada”, que no caso se traduz em uma relação puramente carnal.

Por fim, declara o fim de seus “vinte anos de boy” — ou seja, de sua juventude — e se reafirma ao dizer que “já passou meu carnaval”, decidindo enfim ir embora e deixar para trás esse amor frustrado. Agora dá até para cantar pelos bares do país com mais emoção, hein?

“Chão de Giz” — Letra Completa

Eu desço dessa solidão, espalho coisas sobre um chão de giz
Há meros devaneios tolos a me torturar
Fotografias recortadas em jornais de folhas amiúde
Eu vou te jogar num pano de guardar confetes
Eu vou te jogar num pano de guardar confetes

Disparo balas de canhão
É inútil, pois existe um grão-vizir
Há tantas violetas velhas sem um colibri
Queria usar, quem sabe, uma camisa de força ou de vênus
Mas não vou gozar de nós apenas um cigarro
Nem vou lhe beijar gastando assim o meu batom

Agora pego um caminhão
Na lona vou a nocaute outra vez
Pra sempre fui acorrentado no seu calcanhar
Meus vinte anos de boy, that’s over, baby!
Freud explica

Não vou me sujar fumando apenas um cigarro
Nem vou lhe beijar gastando assim o meu batom
Quanto ao pano dos confetes, já passou meu carnaval
E isso explica porque o sexo é assunto popular

No mais, estou indo embora!
No mais, estou indo embora!
No mais, estou indo embora!
No mais!

Fotografo, videomaker, editor do site Os Bastidores, estudante compulsivo de TI, fã de Heavy Metal, estudioso da cultura medieval e apreciador de um bom vinho.

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