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Os Bastidores
D2

Batemos um papo com o Marcelo D2 do século XXI. Confira!

Marcelo D2 nos recebeu para falar sobre o disco e filme Amar é Para os Fortes, um dos melhores de 2018. Aproveitamos a oportunidade para perguntar sobre a relação do rapper com as redes sociais, já que muitos dos seus posts no Twitter viralizaram no ano passado durante as eleições. E já que o assunto enveredou pra política, D2 não mediu palavras para falar sobre o atual governo, que considera “despreparado e feito de falácias”.

Relação com a família, sua carreira como cineasta, a moda do rap acústico, Baco Exu do Blues e até Anitta foram outros temas citados pelo artista durante a entrevista. Imperdível!

Vamos começar falando sobre Amar é Para os Fortes. Esse título faz a gente associar o amor com a força, então o ódio com a fraqueza. Não sei se foi essa sua intenção. Mas o que a gente mais vê hoje em dia, em tempo de redes sociais, são pessoas tentando disfarçar as próprias fraquezas atacando as fraquezas dos outros. O que você estava sentindo e pensando quando começou a compor e conceber esse disco e essa obra visual toda?

D2: Cara, é bastante interessante essa sua visão. Eu nunca pensei no ódio como fraqueza. É interessante isso, porque a primeira vez que eu ouvi essa frase, que é de um amigo meu, eu entendi muito do amor que eu deveria falar. Um amor como resistência mesmo. Quase um amor como luta. O Mário Sergio Cortella tem uma frase interessante que diz ‘não se combate ódio com amor, porque o amor é muito frágil para isso’. A gente tem que combater o ódio com outras coisas, mas nunca perder o amor de vista. Cara, eu sempre gostei muito de discos temáticos. Eu estava muito cansado, estava exausto. Esse décimo disco não sabia muito do que falar. E quando ouvi essa frase parece que ela construiu o disco todo dentro de mim. O projeto inteiro. Eu sempre fui um cara muito agressivo, linha de frente. E meus amigos sempre falavam: ‘pô, na sua obra você é um cara forte pra caramba, e na vida pessoal é um cara carinhoso, generoso. Você deveria falar de amor’. E eu pensava ‘não vou falar de amor, acho piegas pra caramba’. Mas nesse disco eu achei isso, tá ligado? Achei o tipo de amor que eu queria falar. Amor entre semelhantes. Amor que cuida, respeita. O curioso é que estamos num tempo exatamente assim, né? Parece que era um prelúdio de tudo isso que está acontecendo. Um dos dias da filmagem foi o dia do assassinato da Marielle Franco. Foi um dia muito forte pra gente. Eu escolhi esse título pela força que ele tem mesmo, de que amar é algo como subversão. E eu, como um bom subversivo que sou, falei ‘ah é? Agora eu amo’ [risos].

Falando agora especificamente da música do disco, é um álbum bastante orgânico, tem vários momentos de banda e destaque pros instrumentos. Você recentemente fez uma turnê pela Europa dando uma pegada mais jazz para a sua música. Tem vários momentos no disco em que as frases rápidas, tradicionais do rap, são deixadas de lado pra abrir espaço pros interlúdios e até mesmo trechos do filme. Como é que foi montar esse quebra-cabeça pra fazer um disco que fosse musical, mas tivesse essa pegada conceitual?

D2: Talvez essa seja meu disco mais orgânico de todos. Digo, dos meus solos. Talvez incluindo o Planet Hemp, não. Eu tenho 65 músicos tocando nesse disco. As pessoas não têm nem noção, nem imaginam que, por exemplo, a bateria de “Febre do Rato” é o Rodrigo Amarante [Los Hermanos] tocando. Na guitarra é o Liminha disco quase todo. O Kassin toca baixo. O processo do disco foi bem diferente para mim. Eu tinha essa ambição artística de fazer algo maior, que me desse um desafio. O desafio foi maior que o primeiro do Planet, por exemplo. Construir a partir de uma ideia de um filme, então, foi um desafio muito grande. Escrever o roteiro, que é uma coisa que eu nunca tinha feito. Mas eu fiz a demo do disco antes, e aí fui gravando em um ‘pendrivezinho’ de 60 GB que levava no bolso. Gravei em 12 estúdios diferentes, entre Rio, São Paulo e Los Angeles. E fui convidando artistas. Quando eu escrevi o roteiro, escrevia as letras junto, e tinha muito claro na minha cabeça o clima que eu queria delas. O caminho musical que eu segui foi de tocar as músicas com instrumentos e depois dar na mão de alguém para fazer uma base de beat eletrônico. Nesse disco foi o Nave que trabalhou bastante nisso comigo. Eu tenho usado essa fórmula desde o Tiro É Onda, de pegar discos antigos, samplear e transformar em rap, que é uma fórmula do rap tradicional. Mas em Amar é Para os Fortes eu não tinha a liberdade de pegar um sample qualquer, porque eu precisava do clima que eu queria. Tem uma música só que é um sample mesmo, que é “Folha da Bananeira”, do Siba. E esse foi talvez o meu projeto mais colaborativo, mais até que o Planet Hemp, porque nesse eu tive a coragem de trazer a galera. Eu precisava disso.

Mudando de assunto, eu queria falar de algo que eu acho que você não consegue mais fugir… mas uma das melhores coisas de 2018 foi você no Twitter! Naquela reta final das eleições, tentando virar voto, você escreveu frases ótimas como: ‘sem sacanagem, eu venho aqui e discuto com meia dúzia de fascistas e fico me achando o cara mais inteligente do mundo. Nunca fui santo, mas vocês me fazem parecer’. Também tem o célebre tweet: ‘a todos que xinguei e briguei em 2018, eu gostaria de dizer que em 2019 tamo aí de novo, seus fdp’. Então, pergunto: você segue firmes nas tretas mesmo?

D2: [risos] Continuo, cara. Nesse momento nem tem precisado, porque o governo está, por si só, se sabotando. Os caras são totalmente despreparados. É um governo feito de falácias, de mentiras. Não que outros não tenham sido, mas este chegou num nível bem surpreendente. Nessa coisa das eleições, eu voltei pro Twitter porque eu sabia que o Bolsonaro estava lá e ele estava me incomodando pra caramba.

Até rolou uma interação entre os dois, né?

D2: É, ele perguntou ‘quem é esse Marcelo D2’. Eu achei que ali era um lugar interessante para esse debate, e eu gosto dessas discussões. Ali eu fui mais o cidadão Marcelo e menos o artista. Muitos falaram ‘cê tá muito nervoso’, mas eu não estive nervoso em nenhum momento! Eu me diverti bastante com isso. Para mim, a síntese disso tudo foi quando o Bolsonaro foi eleito, eu fui comprar pão no dia seguinte, acordei naquela ressaca da eleição achando que ‘fodeu’. Estava com medo até de sair da rua. Tinha uma nuvem negra no ar. E eu fui na padaria e veio uma menina falar ‘cara, obrigado, sua voz foi importante pra caralho’. Eu respondi que não valeu de nada, e ela disse: ‘valeu sim, porque manteve o jogo aí, mostrou que tem gente com vozes sensatas’. Não que eu seja a voz, porque nós todos somos uma voz. Mas aquilo me deixou mais tranquilo. Mas a forma como foi feita essa eleição, de parecer que o PT é dono do discurso de esquerda, discurso humanitário… o que não é. Eu tenho todas as minhas questões com o PT, acho que ele errou muito. Mas essa burrice de achar que os 16 anos de esquerda no poder foram mais destruidores do que os 484 anos de Brasil, de imperialismo, de burguesia, de proibições de tudo… pô, isso é uma idiotice, né? O melhor governo que o país já teve foram os 8 anos de Lula e isso não tem questão. Teve erros? Pra caramba. Acho que o maior erro do PT foi ter posto a Dilma depois. O que me deixa mais triste nisso tudo é que realmente não é uma discussão sincera, não tem uma preocupação com o bem estar do povo. É uma porrada de mentira para comprar votos e para comprar corpos.

Pra gente ir concluindo esse papo, e eu acho que o Gilberto Gil sempre traz pensamentos muito conclusivos e brilhantes para todo mundo… como ele mesmo diz no seu disco: ‘não recuo nem em pensamento, sigo o movimento que pra mim é natural de resistência cultural’. Pra você é mesmo natural fazer política com a sua arte? Você pensa nisso antes de compor, ou é algo que você já acorda e vive sua vida assim?

D2: É, eu sou assim, até em casa com meus filhos. A gente vai comer arroz e feijão e é um debate. E é nessa temática que eu acho que escrevo melhor. Eu já escrevi muito na vida, desde os 14 anos. E quando eu conheci o Skunk e a gente resolveu fazer o Planet Hemp, eu comecei a entender que esse era meu lugar. Já escrevi sobre outras coisas, meu melhor nível é o combate. Usar a música como instrumento de luta. Também se luta com uma canção, tá ligado? E eu vim de uma geração com N.W.A., Public Enemy, em que o rap era um instrumento de luta mesmo. E no rap brasileiro dessa época, começo dos anos 90, era quase que uma obrigação. Você tinha que falar de problemas sociais. Eu gosto disso e eu acho que é importante. Vou te falar uma coisa que talvez ninguém tenha se atentado a esse fato, mas até setembro ou outubro de 2018, o rap estava caminhando para um lado muito babaca. O rap de condomínio, como eu costumo falar, que é aquele rap falando de área VIP, de Chandon, de minas que fazem isso ou aquilo… um rap quase de ostentação. Esse rap morreu de outubro pra cá. A gente agora vê pouco desses moleques falando essas besteiras, porque o país virou outra coisa, e a gente começou a ouvir outras vozes, como Djonga, Baco, BK e Rincon. São caras super expressivos e que têm uma voz interessante pra caramba. Hoje eu ouvi falar que existe rap de direita…

[risos] Tem uma onda de rap acústico também… e não é aquela pegada do seu Acústico MTV!

D2: Pois é… rap acústico, de acústico não tem nada. É voz e violão. O Brasil tem essa tendência: sertanejo universitário, forró universitário, mais ou menos igual esse rap acústico. Eu costumo separar as coisas entre cultura e entretenimento. A gente tem que saber que Gilberto Gil é cultura, e Anitta é entretenimento. Eu não quero nem entrar na disputa de quem é melhor ou pior, mas é diferente. E eu tento ficar no lado da cultura o máximo possível. A música como entretenimento é legal também, mas ela tem que ter esse lado cultural. Não dá para você falar qualquer merda. Eu tenho quatro filhos, e quando eles ficam adolescentes eu falo ‘quer ouvir reggae? Então vem aqui que vou te mostrar um bom’. Pego minha coleção de vinil, a vitrola e digo ‘sabe como funciona um toca discos ainda, né?’. Outro dia minha filha pegou uma fita cassete e perguntou como funcionava. Aí eu abri o walkman e falei ‘cê bota a fita aqui dentro’. Ela pegou a fita com caixa e tudo e tentou botar, e eu: ‘não, pô, tem que tirar da caixa!’ [risos].

E a sua vertente cineasta, você continua empolgado pra demonstrar a sua resistência por esse caminho também?

D2: Estou. Esse projeto teve uma coisa interessante, que é a tal da ambição artística, aquele cansaço que falei mais cedo. Eu não sou só o Marcelo D2 que pinta nas revistas e nos sites. Tem mais coisa. Eu sempre me interessei muito por cultura em geral, principalmente artes, artes plásticas, cinema e música. Tenho quase 6 mil discos de vinil, isso porque eu já dei uma limpa grande. Eu sou um caçador. Na internet, em vez de ficar no Instagram, eu vou ler os sites que me interessam. Vou ver as matérias de vocês, por exemplo. Geralmente eu estou em lugares que me trazem alguma informação, não só uma pessoa bonita. E estava me incomodando essa rotina de gravar disco, dar entrevista e sair em turnê. Estava ficando muito chato. Talvez eu não faça isso de novo, de escrever e dirigir um filme… Não sei, pode ser que aconteça. Mas isso abriu um leque muito grande para mim sobre outras plataformas, fazer música com vídeo e tudo. Pra mim foi bonito pra caramba e estou muito feliz de ter feito esse disco. Estou sentindo que honrei todos os privilégios que eu tive, que foram poucos, mas acho que honrei eles. Estar aqui, agora, com 50 anos, depois de tudo… Talvez o maior medo da minha carreira era ‘cagar’ em tudo que já fiz. Então sempre dou passos bem pensados. Acho que honrei minha história e não estou fazendo uma merda. Tem um site aqui super legal, como o de vocês, entrevistando um cara de quase 50 anos e 25 de carreira. Eu podia só estar tocando as minhas músicas em voz e violão… [risos].

Mas continua se reinventando, e está de parabéns. O filme e o disco Amar é Para os Fortes são sensacionais. Pra nós, encontrar ídolos é sempre perigoso, a gente fica com medo de se decepcionar. Mas nesse caso, saímos daqui super felizes. Muito obrigado pelo papo!

D2: Obrigado! Feliz de encontrar vocês também, sou fã do trabalho de vocês. Música e cultura: a gente não pode largar isso. Talvez nunca se consumiu tanta música no mundo como agora. Todo mundo tem streaming no telefone, mas a gente não pode esquecer que essa porra é importante pra caralho.

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